June 10, 2020 / 6:17 PM / a month ago

ENFOQUE-Indústria de máquinas agrícolas sobe preço no Brasil para mitigar custos com câmbio

SÃO PAULO (Reuters) - Montadoras de máquinas agrícolas estão reajustando preços para repassar o aumento de gastos com peças importadas encarecidas pela alta do dólar, e devem ter a seu favor a boa rentabilidade de produtores de grãos do Brasil, um dos poucos setores que, também pelo câmbio, obteve margens positivas neste momento de crise histórica.

Exibição de máquinas agrícolas em feira agropecuária em Ribeirão Preto (SP) 27/04/2015 REUTERS/Paulo Whitaker

O movimento, disseram executivos das principais companhias que atuam no Brasil, incluindo multinacionais, visa mitigar custos maiores com o câmbio, uma vez que o dólar chegou a acumular alta de mais de 47% ante o real na máxima do ano, em maio. Ainda que recentemente a moeda brasileira tenha se valorizado, a divisa americana segue com avanço de mais de 20% no acumulado de 2020.

Após um primeiro semestre de negócios mais mornos em meio a incertezas relacionadas à pandemia do coronavírus, o setor de máquinas agrícolas também espera uma movimentação maior dos agricultores no segundo semestre, quando é semeada a safra de soja, a principal do país, conforme executivos ouvidos pela Reuters.

Devido à alta tecnologia embarcada nas máquinas, o uso de componentes importados faz com que as despesas com insumos em dólar fiquem entre 25% e 50%, a depender do equipamento.

“Estamos subindo preços para diminuir o impacto do aumento de custo que veio com a elevação do câmbio”, disse à Reuters o presidente da AGCO América do Sul, Luis Felli.

Na mesma linha, o vice-presidente da New Holland Agriculture para a América do Sul, Rafael Miotto, afirmou que a companhia já realizou repasses “bem importantes”.

“A gente não repassou 100% do aumento na despesa porque acreditamos que de seis meses a um ano o cenário melhore”, acrescentou.

“Temos um nível de 30% a 50% de importação (de peças) dependendo do produto. O aumento de custo (com câmbio no Brasil foi) de 15% a 30%, e os repasses foram realizados de acordo com cada produto também”, disse Miotto.

Na brasileira Jacto, o presidente da companhia, Fernando Gonçalves, conta que 25% das despesas é com importação.

“Sofremos um aumento de custo muito significativo, que subiu bastante com o dólar alto. É difícil fazer toda essa reposição, temos reajustes para serem feitos conforme for possível o mercado absorver”, declarou Gonçalves.

O executivo da New Holland, onde o reajuste já foi integralmente aplicado, disse que ainda não foi possível identificar a resposta do produtor rural para a medida, mas ele acredita que os agricultores sabem que por mais avançada que seja a indústria brasileira, muitos componentes não podem ser encontrados no país.

“O agricultor entende e (muitos) já esperavam pelo reajuste.”

CAUTELA

Algumas companhias resistem ao repasse de custos para evitar eventuais perdas de vendas em meio à pandemia.

Na unidade brasileira da norte-americana Deere, por exemplo, ainda há resistência em adotar este tipo de estratégia, considerando o cenário adverso do setor em meio à crise da Covid-19.

“Por enquanto não aplicamos (repasses), estamos avaliando isso, queremos segurar o máximo de mercado”, disse o diretor de Assuntos Corporativos da John Deere para a América Latina, Alfredo Miguel Neto.

“Não tem uma resposta mais assertiva, estamos em fase de análise”, acrescentou.

Ele concorda que o produtor rural que exporta sobretudo grãos está mais capitalizado, porém, “muito pela pandemia”, a companhia espera uma queda entre 10% e 15% para as vendas de máquinas agrícolas na América do Sul.

“O exportador de grãos está muito bem. Os grandes agricultores quando veem uma oportunidade gigantesca como a que o dólar alto proporcionou para a exportação, ele consegue crédito e vai investir (em máquinas)... o pequeno produtor vê a situação política e econômica do país e se retrai, enquanto o médio pode ir tanto para o lado do grande quanto do pequeno”, disse Miguel Neto, que também representa o setor na Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

Dados da associação indicam que as vendas internas de máquinas agrícolas e rodoviárias —da indústria para concessionários— subiram ligeiramente em 0,9% de janeiro a maio, para 15,7 mil unidades.

Já a produção caiu 22,5% no período, para outras 15,7 mil unidades, pressionada pelo fechamento de diversas fábricas devido à falta de peças durante a pandemia.

“No final de março começamos a sofrer com falta de peças. Na média, as nossas plantas pararam por 20 dias, nesse período conseguimos restabelecer a cadeia de produção e restabelecemos nossas fábricas no final de abril”, lembrou Felli, da AGCO.

Para Miotto, da New Holland, a ausência de componentes na cadeia ainda não foi recomposta totalmente.

“Temos atraso na produção por esse motivo... Estamos acompanhando com muita atenção o efeito do coronavírus, mas de uma hora para outra podemos ter fornecedores fechados novamente. Se houver mais uma disrupção, pode vir um efeito importante aqui”, alertou.

PROJEÇÕES

Oficialmente, a Anfavea ainda não fez projeções para a área de máquinas agrícolas em 2020, considerando os efeitos da pandemia, pois pretende aguardar a divulgação do Plano Safra 2020/21, marcada para o próximo dia 15 pela ministra da Agricultura, Tereza Cristina.

“Ainda não foi feita uma projeção para o ano porque ela depende da divulgação e operacionalização do Plano Safra... Se virão juros menores e também o volume de recursos, porque não adianta ter juros lá embaixo e crédito que não atenda o período todo”, afirmou a Anfavea na última sexta-feira, ao divulgar o balanço de maio.

Quanto a isso, o presidente da Jacto ressaltou que, de acordo com declarações da ministra, o volume de recursos para subvenção será o mesmo. “E, se será o mesmo, significa que não será suficiente para atender o setor. O Moderfrota acabou em maio”, disse ele, em referência ao volume de recursos do programa de financiamento de máquinas.

Gonçalves disse que, atualmente, o faturamento da Jacto acumulado no ano está 5% inferior ao de 2019.

Mas a expectativa é de uma retomada no segundo semestre capaz de fazer com que a empresa feche 2020 em alta de 5% a 10%. Na companhia, a área de grãos responde por 80% da demanda.

“Com certeza o setor de máquinas está mais dependente da área de grãos. Produtores tinham feito negócios bons de algodão, mas são cuidadosos no investimento agora e na cultura da cana, com certeza a demanda está mais retraída, porém pode se recuperar antes do esperado”, avaliou o executivo da New Holland.

Miotto, da New Holland, disse que a expectativa é de que as vendas da empresa recuem de 5% a 10% em 2020. “Estamos melhorando nossa estimativa. Há três meses falávamos em queda de 20%, espero que a projeção continue melhorando ainda mais.”

Na AGCO, a perspectiva para as vendas no setor de máquinas também indica redução de 5% a 10% em relação ao ano passado, embora a visão do cenário para o segundo semestre seja otimista.

“A pandemia trouxe incertezas, mas possivelmente os juros menores do Plano Safra podem alavancar o mercado. Ainda temos um câmbio favorável para quem exporta... E achamos que o segundo semestre será positivo para a área de máquinas”, disse Felli, da AGCO.

Nuestros Estándares:Los principios Thomson Reuters
0 : 0
  • narrow-browser-and-phone
  • medium-browser-and-portrait-tablet
  • landscape-tablet
  • medium-wide-browser
  • wide-browser-and-larger
  • medium-browser-and-landscape-tablet
  • medium-wide-browser-and-larger
  • above-phone
  • portrait-tablet-and-above
  • above-portrait-tablet
  • landscape-tablet-and-above
  • landscape-tablet-and-medium-wide-browser
  • portrait-tablet-and-below
  • landscape-tablet-and-below