April 24, 2020 / 8:48 PM / in a month

Bolsonaro nega interferência na PF e acusa Moro de negociar troca de comando por vaga no STF

BRASÍLIA (Reuters) - Cercado por seus ministros, o presidente Jair Bolsonaro rebateu nesta sexta-feira as acusações do agora ex-ministro da Justiça Sergio Moro de que deseja interferir politicamente na Polícia Federal, e afirmou que o ex-juiz tentou negociar a troca no comando da PF por sua própria indicação a uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF).

Presidente Jair Bolsonaro durante pronunciamento no Palácio do Planalto 24/04/2020 REUTERS/Ueslei Marcelino

“Mais de uma vez o senhor Sergio Moro disse para mim: ‘Você pode trocar o (Maurício) Valeixo, mas em novembro, depois que você me indicar para o Supremo Tribunal Federal’”, disse Bolsonaro em pronunciamento com 45 minutos de duração, no Palácio do Planalto, citando o agora ex-diretor-geral da PF.

Bolsonaro decidiu no início da tarde responder à fala de Moro depois de discutir o assunto com seus ministros mais próximos. O ex-juiz da Lava Jato pediu demissão pela manhã e acusou o ex-chefe de tentar interferir na PF e em inquéritos que tramitam no Supremo ao exonerar Valeixo.

O presidente assistiu ao pedido de demissão de Moro em seu gabinete com os ministros palacianos Walter Braga Neto (Casa Civil), Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) e Jorge Oliveira (Secretaria-Geral), e se manteve reunido com eles, de acordo com uma fonte, até a hora de fazer seu próprio pronunciamento.

Inicialmente previstos para se reunirem no Planalto para discutir o programa Pró-Brasil, os demais ministros, além do vice-presidente Hamilton Mourão, foram convocados para comparecer ao pronunciamento com Bolsonaro. Só não estavam presentes Ricardo Salles, do Meio Ambiente, e Marcelo Álvaro Antônio, do Turismo.

Três deputados também compareceram para prestar apoio ao presidente: Eduardo Bolsonaro, Carla Zambelli e Helio Lopes, todos da ala do PSL ainda aliada a Bolsonaro.

Em seu pronunciamento, Bolsonaro negou ter a intenção de interferir na PF, mas reconheceu que solicitou informações a respeito de determinadas investigações, incluindo os inquéritos sobre a morte da vereadora Marielle Franco e da facada que ele próprio sofreu durante a campanha presidencial de 2018.

O presidente admitiu que pediu à PF que interrogasse um ex-sargento da Polícia Militar do Rio de Janeiro acusado de envolvimento no assassinato de Marielle, cuja filha teria namorado seu filho mais novo, Jair Renan, e revelou ter consigo uma cópia do depoimento.

“Eu fiz um pedido para a Polícia Federal, quase com um por favor: chegue em Mossoró e interrogue o ex-sargento. Foram lá, a PF fez o seu trabalho, interrogou e está comigo a cópia do interrogatório”, disse o presidente. “Mas eu é que tenho que correr atrás disso? Ou é o ministro? Não é a Polícia Federal que tem que se interessar?”.

ACUSAÇÃO MAIS GRAVE

Em sua fala, Bolsonaro também tentou desqualificar o trabalho de Moro à frente ao Ministério da Justiça, afirmando mais de uma vez que teve de pedir “por favor” para a que a PF investigasse a facada que levou durante a campanha.

Disse ainda que Moro tinha posições políticas diversas das dele, como, por exemplo, ser desarmamentista, e resistia a pedidos feitos por ele.

“Aquilo que eu defendi durante a campanha os ministros têm obrigação de estar comigo”, reclamou.

Bolsonaro também rebateu afirmações de Moro a respeito da saída de Valeixo do comando da PF, dizendo que a lei lhe garante trocar o diretor-geral da corporação e até mesmo o ministro, sem precisar pedir autorização a ninguém.

“Eu e o doutor Valeixo conversamos por telefone e ele concordou com a exoneração a pedido. Desculpe, senhor ministro, o senhor não vai me chamar de mentiroso. Não existe uma acusação mais grave para um homem como eu, militar, cristão e presidente da República ser acusado disso”, afirmou.

Moro, em sua fala, afirmou que não assinou a exoneração de Valeixo, apesar do decreto publicado no DO nesta madrugada ter a assinatura digital do ministro. No início da noite, o governo federal republicou a demissão de Valeixo, desta vez sem a assinatura de Moro. [L2N2CC2K0]

Também foi publicada a demissão, a pedido, de Sergio Moro.

O procurador-geral da República, Augusto Aras, pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) a abertura de um inquérito criminal para apurar os “fatos narrados e as declarações” apresentadas mais cedo pelo agora ex-ministro, segundo pedido apresentado à corte.

Aras pediu que Moro seja ouvido no inquérito para apresentar provas que comprovem os fatos que narrou. Ainda não houve escolha do relator do caso nem autorização determinada pelo Supremo.

“DECEPCIONADO”

Bolsonaro disse ter ficado “decepcionado e surpreso” com a decisão de Moro de comunicar seu pedido de demissão publicamente sem antes informá-lo, e afirmou ainda que não pode ter sua autoridade confrontada por nenhum ministro. Ele acusou Moro de ter postos “projetos pessoais” acima do país.

“Não posso aceitar minha autoridade confrontada por qualquer ministro. Assim como respeito a todos, espero o mesmo comportamento. Confiança é uma via de mão dupla”, afirmou. “O governo continua, o governo não pode perder a sua autoridade por questões pessoais de alguém que se antecipa a projetos outros.”

Bolsonaro disse que, mesmo antes de saber o que Moro falaria, avisou em um café da manhã com parlamentares que eles saberiam às 11h —horário em que Moro anunciou sua demissão— quem não o queria na cadeira de presidente.

“Uma coisa é admirar uma pessoa, outra é conviver com ela, trabalhar com ela. Hoje pela manhã disse a parlamentares: ‘Vocês conhecerão aquela pessoa que tem compromisso consigo, com seu ego, e não com Brasil´. O que eu tenho a meu lado é o povo brasileiro. Hoje essa pessoa vai buscar colocar uma cunha entre eu e o povo brasileiro’”, contou.

Enquanto Bolsonaro falava, panelaços contra o presidente aconteceram em vários locais no país. No Palácio do Planalto, podiam ser ouvidos buzinaços na Esplanada dos Ministérios. Na Praça dos Três Poderes, cerca de 30 pessoas com bandeiras do Brasil defendiam o presidente.

No Congresso, segundo uma fonte, um eventual impeachment do presidente não é uma alternativa considerada no meio da crise do coronavírus, mesmo porque o presidente conseguiu força política ao se aproximar do centrão, ainda que a correlação de forças políticas possa mudar num piscar de olhos.

Essa mesma fonte avaliou que Bolsonaro pode perder popularidade —e, portanto, capital político— entre a ala que se considerava bolsonarista principalmente pelo discurso contra a corrupção, por conta do antipetismo e ainda devido ao próprio Moro.

Reportagem adicional de Maria Carolina Marcello e Ricardo Brito, em Brasília, e Eduardo Simões, em São Paulo

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