April 23, 2020 / 7:24 PM / a month ago

ESPECIAL-De produtores peruanos a vendedores em Paris, coronavírus vira comércio de drogas de cabeça para baixo

RIO DE JANEIRO/CIDADE DO MÉXICO (Reuters) - Muitos países do mundo gastaram bilhões de dólares para resgatar negócios afetados pela pandemia de coronavírus. Produtores peruanos da folha de coca, a planta usada para fazer cocaína, dizem que também querem ser ajudados. 

Cocaína apreendida pela polícia do Peru 11/07/2017 REUTERS/Mariana Bazo

O preço das folhas de coca vendidas para traficantes de drogas caiu 70% desde que o Peru entrou em isolamento no mês passado, segundo Julian Pérez Mallqui, chefe da organização local de cultivadores.

Ele afirmou que seus membros pertencem ao mercado de coca legal e rigidamente regulamentado no Peru, mas reconheceu que alguns produtores trabalham no mercado ilegal. Autoridades peruanas dizem que mais de 90% da colheita de coca do país acaba nas mãos de traficantes que agora estão em dificuldades para transportar o produto. 

Com a turbulência no setor, o grupo de Pérez está desenhando um plano para pedir que o governo compre o excedente da produção de coca. 

O Peru “tem que definir uma estratégia clara de intervenção para a coca”, disse Pérez. “Estamos tão ferrados quanto todos os outros.”

Um porta-voz da agência antidrogas do Peru afirmou que o governo pode canalizar mais verba de auxílio ao desenvolvimento das áreas mais afetadas.

A pandemia de coronavírus colocou de cabeça para baixo várias indústrias ao redor do mundo. O comércio internacional de narcóticos não foi poupado. Dos terrenos comandados por cartéis ao longo da fronteira entre Estados Unidos e México e os campos de coca nos Andes aos vendedores de rua em Londres e Paris, traficantes estão enfrentando alguns dos mesmos problemas de negócios legais. 

Em três continentes, a Reuters conversou com mais de duas dezenas de agentes da lei, especialistas em narcóticos, diplomatas e pessoas envolvidas no comércio ilegal. Eles descreveram um negócio que passa por cadeias de fornecimento quebradas, atrasos nas entregas, trabalhadores descontentes e milhões de clientes em isolamento. Também deram uma amostra da inovação —e oportunismo— que são marcas do submundo. 

Cecil Mangrum, detetive de narcóticos do Departamento de Polícia de Los Angeles, disse que um informante recentemente recebeu uma ligação de um contato mexicano oferecendo 11 quilos de metanfetamina por 3.200 dólares o quilo. É mais do que o triplo do preço de algumas semanas atrás e o valor mais alto pelo estimulante que ele viu em uma década de operações contra o tráfico. 

“Gostaria que houvesse um site em que você pode denunciar cartéis por aumento abusivo de preços, porque esses valores são ridículos”, disse Mangrum. 

A América Latina é o epicentro do comércio global de drogas estimado em 650 bilhões de dólares por ano, segundo o Global Financial Integrity, um centro de estudos com sede nos EUA. As gangues obtêm enormes lucros produzindo e transportando cocaína, maconha, metanfetamina, heroína e fentanil, vendidos ao redor do mundo. 

Os problemas tendem a ter vida curta, dizem alguns especialistas antinarcóticos. Os cartéis já provaram que são hábeis em superar obstáculos. A pandemia em algum momento diminuirá, as rotas de comércio serão reabertas, os clientes e vendedores sairão de suas casas. 

Ainda assim, o coronavírus conseguiu fazer o que autoridades do mundo inteiro não conseguiram: retardar o narcotráfico global quase da noite para o dia e infligir um certo nível de dor em todos que participam dele. 

No México, o cartel de Sinaloa encarou muitas ameaças ao longo dos anos, incluindo a prisão do seu ex-líder Joaquín “El Chapo” Guzmán. Mas nunca uma como a pandemia de coronavírus. 

As perturbações ao comércio global elevaram os preços de substâncias importadas como a efedrina, necessária para a produção de metanfetamina, uma das principais peças do império de narcóticos da organização.

Enquanto isso, o fechamento parcial da fronteira entre México e Estados Unidos para diminuir a disseminação do vírus complicou a distribuição, de acordo com dois membros do cartel de Sinaloa que conversaram com a Reuters. 

“Com a fronteira fechada, estamos tendo problemas para cruzá-la”, disse uma das pessoas, que ajuda a produzir o opióide sintético fentanil para o cartel.

Milhares de quilômetros ao sul, no Brasil, facções do tráfico de drogas enfrentam problemas similares de distribuição. No porto de Santos, ponto de envio de uma porção significativa de cocaína sul-americana em direção à Europa, as apreensões caíram 67% no mês passado em comparação com março de 2019, segundo a Receita Federal.

O delegado Ciro Moraes, chefe da Polícia Federal em Santos, disse que é um sinal de que os traficantes estão passando por sua própria “recessão”, graças à Covid-19. 

“Prejudica os negócios”, disse, mesmo que temporariamente. 

IMPASSE MEXICANO

Os Estados Unidos são o principal parceiro comercial do México e o maior consumidor de suas drogas ilegais. No ano passado, cerca de 950 mil pessoas entraram nos Estados Unidos diariamente, a pé ou em veículos, por meio de dúzias de pontos de checagem na fronteira com 3.145 quilômetros de extensão, segundo a agência de Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA. 

A maioria das drogas é contrabandeada em carros de passageiros que passam por vistorias muito menores que caminhões comerciais, dizem analistas de segurança. O fechamento da fronteira em 21 de março para todas as viagens não essenciais representou um duro golpe nesta engrenagem.

“Tudo parou na fronteira”, disse o produtor de fentanil do cartel de Sinaloa que conversou com a Reuters.

Os preços no atacado subiram por volta de 10% nas últimas semanas, acrescentou. Um quilo de fentanil vendido no atacado por sua organização para um comprador de drogas em Sinaloa sai por aproximadamente 490 dólares, disse, mas esse preço pode subir para 50.000 dólares o quilo se for entregue em Nova York. 

As matérias-primas também estão atormentando o cartel. Fentanil e metanfetamina, que matam dezenas de milhares de norte-americanos todos os anos, são feitos com substâncias muitas vezes fabricadas na China, na Índia e na Alemanha, dizem autoridades do México e dos Estados Unidos. 

O fechamento de fábricas, a redução de funcionários, as demoras das remessas e controles mais rígidos de fronteiras ao longo de toda a cadeia de suprimentos criaram uma escassez. Um produtor de metanfetamina do cartel de Sinaloa disse à Reuters que a pandemia levou a um aumento de três vezes no valor de alguns ingredientes, o que pressiona as margens de lucro. 

Sete agentes antidrogas nos Estados Unidos, incluindo três da agência de combate às drogas DEA, descreveram um mercado de drogas instável no país. 

A metanfetamina foi a mais afetada, com metade dos escritórios locais da DEA registrando aumentos de preços, afirmou uma fonte sênior da DEA com conhecimento da avaliação nacional da agência sobre os impactos causados pelo coronavírus. 

Os suprimentos de fentanil, maior causa de mortes por overdose nos EUA, parecem estar estáveis, disseram várias autoridades. 

John Callery, agente especial no comando do escritório da DEA em San Diego, afirmou que o preço das drogas em seu setor subiu aproximadamente 20% no geral, exceto pela metanfetamina, cujo valor mais do que dobrou nas últimas duas semanas, para até 2.000 dólares por 1 libra (450 gramas). O aumento abusivo de preço pode ser o culpado, disse. 

Em cidades com isolamentos mais frouxos contra o coronavírus, a atividade ilícita é mais resistente, disse a polícia. 

Em Houston, os mercados de drogas estão resistindo bem porque os traficantes ainda tinham grandes estoques, afirmou o tenente Stephen Casko, do Departamento de Polícia de Houston. “Quando essas reservas se esgotarem, você começa a sentir o estresse”, disse. 

Jerome Washington, sargento do gabinete do xerife de El Paso, no Texas, afirmou que a queda de tráfego de veículos fez com que os traficantes diminuíssem o número de tentativas de atravessar drogas pela fronteira. 

“Eles estão sendo mais seletivos”, disse Washington. “É um jogo de números: mais carros nas ruas, mais carros que você pode enviar para que se misturem.” 

Os cartéis parecem estar procurando transportes alternativos, disseram autoridades dos EUA. Há sinais de que as gangues estão movendo mais produtos pelos túneis que atravessam a fronteira, segundo uma autoridade sênior da alfândega. Mais drones e aviões ultraleves avistados na fronteira sugerem que as quadrilhas estão intensificando as entregas aéreas, acrescentou. 

“A tática de contrabando mudou”, disse a autoridade. Traficantes “vão por cima ou por baixo”. 

Levar o dinheiro das drogas de volta para o México também tem se provado uma dor de cabeça, dizem agentes antidrogas. 

Em Los Angeles, os cartéis lavam lucros ilícitos por meio de lojas no distrito de roupas da cidade, segundo um investigador da DEA na Califórnia. O rendimento das vendas de drogas nos EUA dirigem-se ao sul como bens domésticos exportados que os cartéis vendem no México para receber o dinheiro, disse a agência. Mas o fechamento de negócios não essenciais na Califórnia impediu esse esquema, afirmou o investigador da DEA. 

“TUDO PARALISADO”

A América do Sul estava inundada de cocaína muito antes de qualquer um ter ouvido falar da Covid-19. A produção recorde dos últimos anos pesou nos preços. As gangues intensificaram as exportações, disseram as autoridades, transportando quantidades sem precedentes para mercados de longa data nos Estados Unidos e na Europa e também cultivando novos clientes no Oriente Médio e na Ásia. 

No Reino Unido, as apreensões de cocaína no ano financeiro de 2018/19 chegaram a 9,65 toneladas, o maior total desde o início dos registros, em 1973, e um crescimento de quase 200% em comparação com 2017/18, disse o Ministério do Interior britânico. 

No Peru, segundo maior produtor do mundo atrás da Colômbia, o isolamento nacional para atacar o vírus funcionou como um botão de desligar para o esquema de transporte de cocaína, segundo Miguel Ángel Ramírez Vásquez, membro da polícia antidrogas do Peru. Com as fronteiras fechadas, voos reduzidos e estradas mais rigorosamente patrulhadas, ele afirma que as quadrilhas estão com problemas para mover as drogas. 

“Tudo está paralisado. Ninguém está comprando e ninguém está vendendo”, disse Ramírez. 

Entre as áreas mais afetadas está o vale dos rios Apurímac, Ene e Mantaro. Conhecida como VRAEM, a região produz por volta de 43% da colheita de 50.000 hectares do Peru, segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime. Pérez, representante dos cultivadores de coca, disse que quase toda a região com 500.000 pessoas vive da colheita. 

A Companhia Nacional de Coca (Enaco), administrada pelo Estado, compra coca para farmacêuticos e bebidas por preços abaixo do que os traficantes de drogas costumam pagar. No entanto, estima-se que 93% da colheita do Peru é convertida em cocaína, disse a Enaco. 

Pérez disse que seu grupo, conhecido como Fepavrae, está discutindo maneiras de fazer com que a Enaco compre o excedente de coca. Ele se recusou a compartilhar detalhes. 

“É uma discussão interna da organização”, disse. “Estamos trabalhando nisso.” 

Christian Galarza, diretor-geral da Enaco, afirmou que não ficou sabendo do plano interno da Fepavrae. Mas não ficou surpreso. 

“Por causa da situação do coronavírus, todo mundo tem que ser criativo e encontrar alternativas”, disse. Ainda assim, ele afirmou que é improvável que a Enaco, que tem vendas anuais de aproximadamente 10 milhões de dólares, possa ajudar muitos dos afetados. 

“Se houver um produtor de coca... que esteja vendendo ilegalmente, não podemos trabalhar com ele”, disse Galarza. “Se eles vão para o outro lado, é difícil, eles cruzaram a linha.” 

Rubén Vargas, chefe da agência antidrogas do Peru, também não estava ciente do plano dos produtores de coca. 

Ele disse que sua agência já planejou um orçamento equivalente a aproximadamente 20 milhões de dólares este ano para projetos de desenvolvimento rural no VRAEM e pode fornecer mais ajuda às áreas mais afetadas pela pandemia. 

“Vamos trabalhar com todas as organizações e produtores que tiverem propostas adicionais dentro dos parâmetros desta emergência que estamos vivendo”, disse. 

Ramírez, o policial antidrogas, ficou perplexo com o plano dos produtores. 

“Quando as coisas estão indo bem, eles vendem para traficantes; quando estão indo mal, esticam a mão em busca de ajuda do governo”, disse. “O que eles acham que estão cultivando? Abacaxis?”

PRESSÃO NO FORNECIMENTO

No outro lado da fronteira, no Brasil, os traficantes enfrentam o problema oposto: o preço da cocaína subiu acentuadamente devido à diminuição do fornecimento, afirmou um policial federal sob condição de anonimato. 

Ele afirmou que o preço no atacado por 1 quilo de cocaína subiu 40% para 20 mil reais nas últimas semanas em Manaus, pólo para o transporte de cocaína andina pelo Brasil até a Europa. 

Enquanto as drogas estão se acumulando na Colômbia e no Peru, “aqui (no Brasil) o preço está caro porque não tem produto”, afirmou o policial federal. 

No porto de Santos, o maior da América Latina, as apreensões de cocaína com destino à Europa diminuíram, segundo Moraes, o chefe local da PF. Oficiais de alfândega apreenderam pouco mais de uma tonelada de cocaína em março de 2020, em comparação com três toneladas no mesmo mês do ano passado. 

Moraes acredita que menos cocaína está entrando no Brasil. Ele também suspeita que a demanda europeia está menor, em parte porque os traficantes de lá estão sofrendo para transportar o produto em meio às medidas de isolamento. 

Na França, o fechamento de bares e locais de festas levou a uma queda no uso de drogas recreativas como cocaína, MDMA, cetamina e LSD, disse o Centro Francês de Monitoramento de Drogas e Toxicodependência (OFDT) em um relatório de abril examinando o impacto da pandemia no comércio ilícito de drogas no país. 

Traficantes têm reagido rapidamente a esta nova realidade, disse o relatório, com alguns mantendo uma distância segura de clientes e até vendendo “desinfetantes para mãos, luvas e máscaras”. 

Reportagem adicional de Mark Hosenball, em Washington; Andrew Hay, em Taos, Novo México; Jesus Bustamente, em Culiacán, México; Lizbeth Diaz, na Cidade do México; Michael Holden, em Londres; Francesco Guarascio, em Bruxelas; David Lewis, em Nairóbi; Marco Aquino, em Lima; Daniela Desantis, em Assunção; e Luis Jaime Acosta, em Bogotá

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